Cristiano Meira Magalhães

Um ponto de vista à vista de um ponto

O “Eu acho”, a Mídia e o Dízimo

No mundo em que vivemos, somos envolvidos diariamente por diversas diferenças de opiniões, crenças e credos.

Todos nós temos o direito de termos diferente opiniões sobre qualquer assunto. Pelo menos esse é o princípio do livre arbítrio.

No entanto, sobre o qual não posso concordar é a abordagem de assuntos que remetem a essas diferenças, por parte da mídia e de forma parcial, partindo do princípio do “eu acho”.

A mídia, seja ela em seus diversos formatos (como TV, rádio, jornais, revistas, internet, dentre tantos mais), deve ser imparcial. Na posição que ocupa como o “quarto poder”, como criadora absoluta de opiniões, seus profissionais devem ter o bom senso e a ética de se absterem-se totalmente do uso pessoal do “eu acho” e apresentar algo menos tendencioso e mais próximo do “a indícios que…”.

Quando a mídia não consegue atingir esse objetivo de imparcialidade, ela passa a ser não mais um veículo criadora de opiniões, mas sim um veículo controlador de massas, promovendo, assim, uma “ditadura mental e psicológica”, onde ela se diz a única capaz de ter a razão e a verdade.

Tendo conhecimento a história, o uso do “eu acho” convergiu a humanidade, diversas vezes, a um estado de cegueira social cujos parâmetros são indescritíveis.

Foi o “eu acho que a raça ariana é perfeita” que levou Hitler a levantar um povo a realizar um dos maiores genocídios da humanidade, o assassinato em massa de raças não germânicas, estando os Judeus entre os maiores a sofrer a consequência dessa posse da “verdade”.

Foi o “eu acho que os não crentes são purificados no fogo” que fez com que a Igreja Católica manifestasse, na “Santa Inquisição” uma das maiores bestialidades que o homem já pode fazer, levando outros seres humanos à morte em fogueiras.

Aos profissionais da mídia, todos devem ter consciência que suas palavras, sejam elas ditas ou escritas, influenciam massas e podem com essas, caso não sejam imparciais, gerar ou aumentar a intolerância entre nossas diferenças já existentes.

Não faz muito tempo, ouvindo um dos programas de rádio mais populares da minha cidade, tive a infelicidade de ouvir do locultor, que por sinal sou um admirador, uma resposta a um e-mail de uma de suas ouvintes, inconformada por não concordar como este abordou um assunto de caráter religioso em um programa anterior.

Tal locultor, movido talvez pela moda ou tendência cancerígena do “eu acho”, que nos aflige nesses tempos, dissertou toda a sua opinião, de julgo pessoal, sem ao menos não demonstrar que por de trás de suas palavras havia algo de mais concreto e imparcial, como uma pesquisa história sobre o tema abordado.

A ouvinte em questão, manifestou sua não concordância de como o locultor abordou o assunto da devolução de ofertas dizimísta para igrejas cristãs, praticadas por seus fiéis.

Segundo o locultor, usando com destaque as palavras “eu acho”, este defendeu que o pagamento de dízimos às Igrejas devem ser feito dando prioridade às necessidades financeiras do membro fiel e não da Igreja em si. O mesmo defendeu, por exemplo, que o membro da Igreja deveria pagar suas contas e por fim, com a quantia que sobrasse em seu orçamento, doar para a sua Igreja.

Se na mídia o uso desse termo já é uma denuncia clara de uma falta de pesquisa sobre o assunto em questão, quando entramos para debates religiosos é uma expressão totalmente sem valor e sentido.

Se o profissional bem o soubesse o dízimo, que é uma das transações financeiras mais antigas feita pela humanidade, é uma oferta voluntária e de fé.

É encontrada a sua origem na Bíblia e dízimo significa “décima parte de algo”, e o termo cristão corretamente empregado é que ele deve ser “devolvido” e não “pago”. O termo “devolvido” é correto porque existe o entendimento que todas as riquezas desse mundo a Deus pertence e o cristão é visto apenas como um administrador dos bens no qual Deus a ele confiou.

O ato de devolver o dízimo é voluntário, visto que somente é aceito por Deus, caso o coração do homem esteja disposto a isso. Diferente de uma mensalidade cobrada por boletos bancários em nosso sistema financeiro, que pode ser cobrada juridicamente aos devedores, o ato dizimísta pode ser conferido apenas pelo próprio Deus, que pode ler os corações e mentes dos que o temem. Encontra-se na Bíblia, no livro de Atos o exemplo de Ananias de Safira, um casal que devolveu o dízimo, mas comtiam-se eu seu coração um sentimento de avareza. Contam as Sagradas Escrituras que ambos morreram imediatamente, fulminados pelo próprio Deus, ao entregarem o dízimo e as ofertas aos membros da Igreja local. Portanto, é ilícito ao homem julgar qualquer membro pela quantia devolvida.

Egoístas por natureza, a nós seres humanos a devolução do dízimo é antes de tudo um ato de fé e de negação do próprio “eu”. Pode ser visto como um símbolo criado pelo próprio Deus a fim de que possamos nos desgarrar dos nossos mais íntimos sentimentos gananciosos.

A devolução do dízimo é é induzida na vida do cristão não apenas em caráter financeiro, mas também é de ordenança ao cristão devolver dízimo a Deus sobre outros aspectos da sua vida, como por exemplo, o seu tempo. Mesmo quando nem sempre é assim que acontece. Imaginemos se cada cristão vivente separasse um décimo do tempo do seu dia, todos os dias, para cuidar das coisas de Deus, como ler as escrituras, fazer bem aos outros e pregar o amor entre os homens, com certeza seríamos outra sociedade.

Ao contrário do que muitos pensam, o dízimo não leva ninguém à falência financeira. Se as pessoas bem soubessem administrar e fazer seus planos com os 90% que lhe restarem do orçamento, não haveria problemas financeiros. Porém, sofremos ataques de consumo por todos os lados e ainda que tivéssemos oportunidade de administrar 200% do que hoje temos direito, ainda assim faríamos dívidas. O problema de quebras do nosso controle financeiro não está no quando recebemos para administrar, mas no quanto gastamos.

Ainda existem relatos de cristãos, convencidos que o dízimo é correto, que narram histórias e experiências descrevendo o sucesso que Deus fez em suas vidas quando estes estavam devolvendo corretamente os seus dízimos e ofertas.

Eu não posso ter nada contra o que pensa o locultor e não posso também julgar o que se passa dentro do seu coração. Mas apenas sei que é ético abster-se do “eu acho” e voltarmos mais a uma mídia mais imparcial e menos sensacionalista.

Julho 7, 2006 Publicado por Cristiano Meira Magalhães | Mídia, Religião | | 4 Comentários